Eram três e vinte e um. Olhei os números a vermelho. A lua meio escondida no céu. E às três e vinte e um, a vinte quilómetros do mar, ouvi gaivotas. Podia dizer que era fruto da minha imaginação, do cansaço das noites em claro, dos sonos em que os olhos acordam quase de hora a hora, à espera, à procura sei lá de quê.
Fui visitar a avó no outro dia. Ralhou-me. Disse-me que não era lá o meu lugar. Que se quisesse ver-me seria ela a vir. Pedi-lhe desculpa, justifiquei-me com o cansaço e pedi-lhe que me enrolasse no xaile negro junto ao peito. Enquanto me abraçava, disse-me que não deveria ter sido eu, a fechar atrás de mim a porta do caçador de sonhos.
Eu sempre preferi os espanta espíritos... Os caçadores de sonhos sempre me intimidaram. Naquela noite, enquanto lhe dizia "eu saio sozinha. Dorme.", receei que o caçador de sonhos, prendesse para sempre os meus sonhos, dentro da casa com a mesa de ferro verde-garrafa.
Partiu-se tanta coisa dentro de mim avó. Quebrei-me em mil pedaços. Saltaram para todos os lados. Faltam tantos pedacinhos! Tão minúsculos que parecem não faltar, mas grandes o suficiente para que o vazio os preencha.
Eu a chegar e a pousar as chaves. As chaves a fazerem barulho sobre o tampo de vidro. E o caçador de sonhos a tilintar como se fossem passarinhos com receio de voar. Tu a olhares-me e a sorrir, com esse sorriso doce que guardas para os momentos felizes da tua vida. Da minha vida. E os meus olhos a beijarem-te antes que a boca o fizesse. E o silêncio cheio de palavras, de promessas que não precisamos verbalizar que o destino já se encarregou de as fazer cumprir.
Eram três e vinte e um e abri os olhos. Nesse momento, juro-te, quase no Alentejo e a vinte quilómetros do mar, ouvi o som das gaivotas.
14.2.08
7.9.07
É doloroso e ao mesmo tempo é bom, ler a agenda de 2004. Encontrei-a por acaso. Talvez a tivesse escondido. De mim própria. Sempre que escondo alguma coisa, escondo de tal maneira que nem eu volto a encontrar. Ou não encontro se precisar. Depois, um dia, não por um acaso como disse ali, nã! As coisas acontecem porque tem que acontecer, aparecem-nos frente às mãos como se sempre estivessem ali. No sítio mais que provável.
É bom. É, porque afinal o agora não é tão mau. Só por isso. Só por isso. Para servir de termo de comparação. Porque o mau actual, o mau presente é sempre pior que o anterior. Temos memória curta. Todos nós. A minha não só é curta como muitas vezes quase não existe. Esta memória que segundo o senhor doutor otorrino pode estar perturbada (e ele disse este perturbada quase a medo, não me queria melindrar certamente. e a mim deu-me vontade de rir.) também pela otite crónica.
Sei que acabarei por ficar surda como a avó. A audição da avó sempre foi péssima e com os anos ela ficou completamente surda. Mantinha grandes conversas na mesma. Mas só sobre os assuntos que queria. Falassem-lhe do tempo, dos preços, da família. Das flores. Do que fosse. Ela respondia com o assunto que muito bem entendesse. E depois ficava ali a dissertar sobre o assunto. A avó sempre foi uma mulher extraordinária.
Já quase não me dói. Ou talvez doa. Mas com o tempo (ou talvez já tenha nascido assim), aprendi a suportar perfeitamente as dores físicas. Só me queixo quando no limite. O meu limite é muito longe. Por isso às vezes penso que sou muito mais forte nas dores físicas que nas outras. As de alma. As que não se vêem. Não sou de lágrima fácil como o mano por exemplo. Quando se magoa, se fere, se corta. Caiem vinte palavrões por milésimo de segundo e parece que está a morrer. Eu não. Mas as dores de alma (e essas, dessas, tenho tantas! tantas que não consigo sarar e que se sobrepõem umas as outras, que certos dias há que parece que já não doem só porque já não há por onde doer), provocam-me olheiras e transformam-me no fantasma que vive no primeiro esquerdo e que faz companhia aos outros fantasmas que por lá habitam e que só eu vejo (provavelmente efeito do desequilíbrio de que falava o senhor doutor.)
Disse-me como se eu tivesse dez anos, que o meu ouvido era como os ouvidos dos esquimós. Não produzia cera. Ao não ter o alimento(!)o ouvido, o que o faz funcionar, adoece. Simples assim. "Por isso ponha uma gota de óleo para bebé no ouvido todas as noites" e disse-o como se à sua frente estivesse a menina de 9 anos que tinha ido lá pela primeira vez. Eu fiz que sim senhor com a cabeça e ele viu que eu nunca me lembro (nunca é um exagero.). O senhor doutor que já na minha infância deveria ter idade para ser meu avô, provavelmente não é mais que um fantasma como aqueles a quem às vezes digo enquanto abro as janelas "vá, vão-se embora por favor". Aqui o "por favor" não é só por hábito, mas também por medo que eles não se vão embora ou pior ainda, resolvam se tornar visíveis e oh karma dos karmas, não seriam uma certeza interior mas uma certeza dos olhos e depois como é que eu lhes contava que às vezes só me atrapalham a vida?
O António, o António (tenho tantas saudades dele e tenho o numero ali gravado no meu telemóvel e nunca lhe digo nada.) que durante meses me dizia de vez em quando no fim de cada mensagem escrita na altura em que eu recebia mais de cem SMS por semana "não te esqueças do óleo" de tal forma que se tornou uma piada entre nós. Mas o António já quase também não me diz nada. Cansou-se de SMS sem resposta ou respondidas com dias e dias de atraso. Sempre o mesmo "desculpa", sempre o mesmo "um beijinho" no fim de cada uma. E o António ficou mais triste depois da minha passagem pela sua vida. Tenho a certeza. Não fui a amiga que precisava. Já tinha passado por mim a tempestade de tristeza que me assolou a alma (e eu só dei por ela muito tempo depois) e me tirou a capacidade de deixar feliz os que se aproximavam mais do que o necessário. Mas no último SMS fiquei tão feliz quando me disse que namorava com uma brasileira e desejei do fundo do coração que seja feliz porque gosto muito dele e porque sempre se preocupou comigo.
O senhor doutor (fantasma de certeza), veio à janela enquanto eu ligava o motor do Astra e acenou. Pensei de mim para mim que com a idade dele de certezinha que é mais surdo que o meu ouvido esquerdo. Que os dois ouvidos silenciosos da avó. E que talvez ele seja como todos os velhinhos, um sábio e no diagnóstico dele esteja a justificação para todas as minhas dores de alma, os meus fantasmas, o terrível dois mil e quatro. Talvez tudo se resuma a essa otite crónica.
19.6.07

"nunca dorme. ás vezes dorme mas é pouco. de noite nao deve dormir. quando eu vou dormir ela está acordada. quando eu me levanto ela está acordada. por isso não deve dormir. anda sempre a fazer coisas. faz muitas coisas ao mesmo tempo. ás vezes quando vai sair fica bonita e parece uma princesa. gosto de lhe pentear os cabelos e ela de vez em quando diz que eu quero que ela fique careca. mas eu não quero. gosto muito do cabelo dela. é bonito e cheira bem. rimo-nos muito quando jogamos jogos que mais ninguém conhece. jogamos a brincar com as pessoas invisiveis. falamos com eles e contamos o que nos aborrece. eu gosto muito dela."
T.
13.5.07
Ao puxar o cortinado amarelo com estrelas bordadas, reparei neles. Eram dois. Um com uns quatro anos e as calças a cair-lhe e o outro com uns oito anos e só de calções. O mais velho mantinha-se em cima da laranjeira e abanava os ramos com força para que as laranjas caíssem, enquanto o mais novo corria apressado a apanhar as laranjas que quase rebentavam (algumas sim.) quando caiam no chão. Abri a janela e fiquei a vê-los. Quando limparam a laranjeira passaram ao único limoeiro existente. Uma fila toda certinha de laranjeiras está na frente do prédio. Do lado de lá da rua. A seguir as laranjeiras um espaço vazio que nunca vai ser preenchido com prédios porque pertence à junta de freguesia e é o novo espaço do mercado mensal. No fim da fila um limoeiro. Costuma estar pendurado em cada árvore um papel que diz "tem cura". Tem cura é uma frase engraçada. Podiam pôr que tem veneno que tem pesticida qualquer coisa. Puseram tem cura. Deve ser uma forma da junta de freguesia evitar que o limoeiro e as laranjeiras sejam constantemente alvo de miúdos e graúdos. É impossível aquelas árvores ter sempre pesticida. Nesse dia não estava o papel em nenhuma das árvores.
Estava o mais velho a tentar trepar o limoeiro que é bem mais alto que as laranjeiras, quando num dos prédios alguém fechou uma persiana e o mais pequeno que andava de cócoras a apanhar as laranjas olhou para cima. Olhou e viu-me. Eu sorri e ele disse meio a desculpar-se "andamos as laranjas". Eu respondi-lhe que não fazia mal, que eu não ia contar a ninguém. Acabei de fumar o cigarro e vi-os a carregarem um saco de plástico do lidl cheio de laranjas e com os poucos limões a que conseguiram chegar. À frente, no espaço onde uma vez por mês há o mercado e onde se vende botas a dez euros e fogareiros a dez euros também, estava a tenda montada à dois dias. As letras gigantes acendiam à noite. Num brilho vermelho já baço. "Circouniversal". Assim mesmo. Tudo pegado. Era o último dia naquela paragem de três dias. Eu que nem gosto de circo que me faz confusão os bichos serem domados, que me faz confusão cortarem as asas a todos os pássaros deste mundo, sejam eles tigres, pessoas ou pássaros mesmo, desejei que nessa noite o circo estivesse cheio. Ou as laranjas seriam provavelmente o almoço daquelas pessoas no dia seguinte.

